segunda-feira, 9 de março de 2009

Rosa Alice Branco


Imagem: Jean Frédéric Bourdier

Há dias em que só uma árvore
esconde a floresta, uma gota
esconde todo o mar. Dias míopes
agarrados ao meu corpo. E se dissesse
que não é meu este corpo, nem a voz
que ouves ao telefone. Ainda assim estou
sempre a partir para mais perto, tão perto
que um grão de areia é apenas um e sei
que deve existir uma praia para lá
do olhar. Avanço e recuo mas os meus passos
parecem de alguém que por ali passou.
E há sempre uma árvore, um ramo,
uma folha opaca maior do que os olhos
com que te vejo se pudesse ver-te.


Dias em que a floresta esconde as suas árvores
e a tua mão torna invisível cada um dos dedos:
o inidicador do infinito, o impreciso lugar
onde me alojo entre o polegar e o médio,
o segundo em que começo a respirar.
Nunca estou no minuto de uma hora,
num poro do meu corpo, no todo que acaricia
as suas partes como o vento acaricia o ar.

Há dias em que entras nos meus dias.
E soletro cada gota quando me desfaço
em espuma e não distingo o branco
do branco do lençol. É uma ignorância
que salva e sinto tudo o que vejo
como se o visse dos meus ou dos teus olhos.
Ou de alguém que não passou por mim
e talvez nem passe. Por isso não pergunto
onde estou ou onde estão as coisas.
As gaivotas caminham apressadas.
Os candeeiros acendem para a noite.
Fechamos os olhos para nos perdermos.


(Trompe l'oeil - Rosa Alice Branco)

4 comentários:

Claudia Sousa Dias disse...

é maravilhosa.

foi a primeira vez que chorei numa sessão den poesia, como disse ao Miguel.


CSD

Adriana disse...

Muito emocionada posso lhe dizer: MAGNIFICO

Marta disse...

Tão lindo :)

Tive muita pena de não poder ficar até ao fim!

Mas, ao menos, o livro, autografado, não me escapou....

beijo muito linda

lupussignatus disse...

o in

finito

de um

minuto


(rosácea

brancura)