
Imagem: Seansean
Esta chuva que nos molha,
que bate nos vidros e apetece ficar por casa a contar as gotas que saltam das nuvens,
esta chuva que tem cheiro a terra,
que inunda os corpos na rua,
esta chuva que bate em dias que o sol devia espraiar,
e que reluz no chão o branco que devia ser amarelo,
que nos faz escorregar em vez de transpirar,
que deixa que se respire,
que tem sabor a verão à espreita de um Outono ainda fechado,
que nos traz um inverno sem frio,
que nos tira a sede e nos impede de derreter,
esta chuva fora de horas num tempo que não conhecemos,
esta chuva que nos molha a norte e chega ao sul,
esta chuva que se confunde com as ondas do mar sem sal,
que nos banha em qualquer tempo,
porque este tempo
já não é o das estações que rodam no calendário,
é um tempo recente que cambia em cada ano.
E pego em cada gota e aqueço-a com a mão de um verão que ainda está para amanhecer.