terça-feira, 27 de novembro de 2007

Adoro... e devoro e vou!


Imagina que todas as pessoas que vivem saíam à rua
era muita gente
imagina
estás a imaginar?
de que cor são?
a que ervas cheiram?
a que sabe o bafo?
olha para dentro agora
estás a olhar?
estás a vê-las?
pois estás
são muitas
cabem-te no coração e tu não cabes em ti
não as deixes morrer
porquê?
porque merecem
porque perecem?
porque te distrais
ficam com frio
com medo
com fome
com pneumonia
já tiveste pneumonia?
não?
pois mas as pessoas já algumas já tiveram pneumonia
e tu nem um calafrio sentiste?
a sério?
um por cada uma?
então estiveste de cama?
quanto tempo?
todos os dias?
então estás sempre doente
e tens sempre temperatura para os aquecer dentro de ti
(está sempre quentinho
tu aqueces todos e todos se aquecem numa lareira a fingir porque as
(paredes do mundo são mornas
e tu ama-las muito
não amas?
amas não amas?
amas não amas?
não?
não?
não?
de certeza?
não lhes sabes o nome?
nem sequer o apelido?
que estranho todos eles sabem o teu nome




(Há sempre lugar p'ra mais um de João Negreiros in o Cheiro da sombra das flores)

_______________________________________________


Dia 1 de Dezembro será lançado este livro maravilhoso no Iduna Espaço, na Rua Brito Capelo em Matosinhos, às 21.30h.

Diversas performances com poemas do livro estarão a cargo de dois actores

O prefácio do livro foi escrito por Joaquim Pessoa, donde retiro:

"O Cheiro da Sombra das Flores que é, em si, um dos bons motivos para celebrar o aparecimento de um jovem poeta que conhece.... os caminhos, os segredos, a magia e a força do discurso poético.
Não é comum esta poesia hoje. Não é vulgar (...) Negreiros rasga, fere, incomoda, impacienta."

mais sobre João Negreiros aqui.


Eu adoro, quanto mais me enredo nas letras, mais as devoro... e dia 1 lá estarei, e como há sempre lugar para mais um..... estão todos convidados

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Homenagem a Cesariny


Este blog hoje, homenageia o pintor e poeta Mário Cesariny, um ano após a sua morte, considerado o principal representante do surrealismo português.
(9 de Agosto, 1923 - 26 de Novembro de 2006)


Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

(Mário Cesariny)
Perdemos todos.....

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Rio

Imagem: Naoya Hatakeyama

Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.

E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

(Jorge luís Borges)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Magia


Imagem: Enrico Marinas


A magia do primeiro amor está em ignorarmos que pode acabar um dia.

(Benjamim Disraeli)

Que não se perca essa magia com a idade.......com o tempo.....

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Desafios - The special one


Como andamos em marés de desafios, os blogs 7 pecados mortais e porque ainda acredito... propuseram-me que escreva a 5ª linha da pagina 161 de um livro.

Assim, e como sou fã do Mourinho, e este blog já tem muitos textos e frases poéticas, optei por uma coisa diferente.

Ainda não tinha feita nenhuma referência à personagem do Mourinho, para mim acho-o um génio no país do futebol.

É mesmo the special one.

E a ele se devem muitas vitórias também do meu Porto.

Assim do livro José Mourinho - Um ciclo de Vitórias de Luís Lourenço, temos:

"Tentou guardar para sempre as imagens e os sons de um público vibrante, frenético até, que a espaços gritava o seu nome."

Amigos que vamos fazendo


Pois é, isto da blogosfera tem destas coisas, e vamos comunicando pelas letras e pelas imagens com pessoas que têm em comum conosco a curva de uma palavra, a partilha, o gosto de ler, e tanto mais.

Eu agradeço a todos os que me visitam, porque fazem parte deste farol, e trazem vento às letras para escorregarem para o ecran.

Eu ganho com os vossos comentários e com os vossos blogs.

Quero agradecer à Ajo à Silêncio Culpado e à hanah, por me terem atribuido os prémios: até não é um mau blog, e o prémio amizade.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Encruzilhada


Tendo sido desafiada pela Contornus, para uma encruzilhada com o título dos últimos 10 posts compor um post em prosa/ conto ou poesia.

Aqui vai a minha resposta aldrabada, porque com alguns posts informativos estava a ser dificil, mas uma boa encruzilhada também tem uma dose de batota... aqui vai a minha.

Há palavras
que nos oferecem a dose da fatia de um doce.
os corpos vivos vagueiam
por onde caminham as estradas,
saltam para o sonho e dançam nas bermas,
o tempo corre,
as folhas voam,
e eu livre de mim, faço cair no Outono
os mantos da saudade,
e na estação do tempo,
quer ser....

o que de mim vier....

Ser

Imagem: healyourself

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.

À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo....

(Álvaro de Campos)


Eu sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura

(Fernando Pessoa)

domingo, 18 de novembro de 2007

Corpos vivos

Imagem: Helmut Newton

Os dois corpos ondulam-se no tempo,
desesperam na angústia do tempo que lhes cabe,
que tempo irá parar os corpos?
que corpos se manterão?
Unidos, estarão sempre,
são corpos bafejados pelas ausências:
da pele,
do toque,
do contacto,
do prazer,
sãos machos,
são fêmeas,
pessoas,
jardins,
flores,
são pedras,
são tudo aquilo,
que os tempos os tornaram.


Permanecem os corpos ausentes,
continuam os presentes,
os corpos são indivisiveis,
ficam com eles,
a vontade de se ondularem,
sentirem,
bailarem,
cruzarem,
fica a vontade...


São corpos celestes,
que se abraçam nas estrelas,
que se embrulham com os planetas,
permanecem com o sol,
e procuram o meteoro,
para voltarem,


são nus,
são vivos,
são corpos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

livre

Imagem: ja chiu

Sempre....
Always ......
..............................................................

Há palavras

Imagens: Cédri Chort, Fgm,

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

(Alexandre O'Neill)


Este poema toca-me sempre na pele....
sinto a boca em cada palavra....

..................................sinto-as

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Sonho


Imagens: Hea

Desgarrada la nube; el arco iris
brillando ya en el cielo,
y en un fanal de lluvia
y sol el campo envuelto.
Desperté. ¿Quién enturbia
los mágicos cristales de mi sueño?
Mi corazón latía
atónito y disperso.
...¡El limonar florido,
el cipresal del huerto,
el prado verde, el sol, el agua, el iris!
¡el agua en tus cabellos!...
Y todo en la memoria se perdía
como una pompa de jabón al viento.

(António Machado)

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Dose da fatia de um doce

Imagem: ?

Dá-me um bocadinho do teu amor todos os dias
Não mo dês todo hoje que amanhã vou precisar dele outra vez
eu sei conheço-me bem
e nesse aspecto sou exactamente como o resto da humanidade
preciso de ser amado todos os dias
só espero não morrer muito velhinho para que o teu amor me dure até ao fim da vida

(João Negreiros in o Cheiro da sombra das flores)

sábado, 10 de novembro de 2007

Cair no Outono

Imagem: Kirill Santalov

Chegou o Verão de S. Martinho.... entrou sem o Outono ter chegado, o verão ainda não arredou pé da mesinha de cabeceira...

Colocaram-se folhas de Outono nos blogs, outros mudaram as cores para cheirar a Outono, mas ele teima em não aparecer.... espreita durante a noite.... mas desaparece mal o sol nasce. O fumo das castanhas já se sente nas avenidas, mas apetite para queimar as mãos, e para aquece-las, ainda não chegou.
As lareiras foram substituidas por ares condicionados, não se vê o fumo a escapar das chaminés, os casacos os cachecois, os gorros, ainda não se abriram dos armários, e as toalhas de praia, ainda caminham pela casa.

O frio não chega, o vento mal se sente, os arrepios não acontecem, não se bate o dente, não entendo este tempo.... acho que vamos chegar ao Natal e substituir o bacalhau pela sardinha assada.

Assim, espero que o Verão de S. Martinho feche a estação, e se comece a sentir verdadeiramente que vivo numa cidade do norte, onde as folhas cobrem as estradas, a neblina matinal inspira-se, a geada cobre os campos, os cafés enchem-se de gente a beber um chá quente.


Quero sentir o Outono! e voar voar com as folhas....

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Guimarães jazz 2007 - já começou

Começou ontem e termina dia 17.

A minha cidade nestes dias muda de cor,
de forma,
de música e de gente.

Tudo se espelha nos trompetes, nos saxofones, nos sons dos sopros, das teclas e dos brilhos...

Começou ontem o Guimarães Jazz com Pharoah Sanders Quartet, eu fui e gostei muito...
os sons estavam lá desde o piano, ao contrabaixo, a bateria que estava potente e o saxofonista entrava e saia, mas enchia sempre o placo, e quem o ouvia.

Dizem os especialistas, que o cartaz é fantástico, a não perder mesmo. Ver aqui.

Eu ainda vou voltar lá mais uns dias, ai vou vou.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Estação

Imagem: João Countinho em http://sitiodasaudade.blogspot.com

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

(Mário Cesariny)

As carruagens que passam e não passam que apitam e não fazem barulho, que se espera e desespera, e que .... não têm carris para caminhar....

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Quizás la imaginación no es más que la inteligencia que se divierte

George Scialabba

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Não falto não...ai não, não.



Amanha, remarei a caminho da capital...

Primeiro dia vou assistir ao maravilhoso Rufus Wainwright, imperdível, único, magnífico, sublime, e tudo o mais que direi no fim...

Vou libertar mesmo todas as estrelas....

Dia seguinte os nova iorquinos Interpol, que não perco não, grupo de rock alternativo que sou apaixonada há anos.

E lá vou eu onde me leva a música.

Assim, todo o vento do norte e toda a luz do farol vão estar no Coliseu dos Recreios.

sábado, 3 de novembro de 2007

Por onde caminham as estradas.

Imagem: Rosario Puglisi

Por onde vão as estradas,
por onde caminham longas avenidas,
entre verdes campos, entre montanhas que aparecem no relento das manhãs, e nas noites frias, as estradas cruzam-se em cada caminho, são estradas perdidas, que nos levam e nos transportam para outras estradas, que não conhecemos, não têm placas, nem nomes, nem destinos.
São as estradas da vida, com pontes, tunéis, claras, escuras, em alcatrão, em pedrado, ou terra batida, são as estradas que devemos caminhar, percorrer, apanhar boleia, ou parar à espera que outra estrada, outro entroncamento se cruze, se encarregue de nos fazer viajar...


ai as estradas locais de passagem, de viragem, de caminhos, de aventuras, de chão firme, ou não... que importa,
o importante é olhar a estrada, e com ela às costas no peito, andar, e ir, ir sempre, na viagem no caminho da estrada, e não fazer inversão de marcha, o que há para lá... no fim da estrada deve ser sentido, admirado, chorado, mas vivido.


ai as estradas da vida! que boas que sois, sem elas estaríamos sempre, no canto à espera de construções.

Quero ir nessa estrada, na companhia da lua da melodia dos pássaros, e derreter-me no alcatrão até me esculpir no tempo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Saudade

Imagem: Paulo A. em www.olhares.com

Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre...

Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados...

Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...

Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos...

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!

(Vinicius de Moraes)

Eu morreria sem alguns dos meus amigos, sem os ter, sem saber que estão bem, sem me ver na vida deles, sem os sentir como meus amigos, sem saber que moram dentro do meu peito....
Todas as perdas têm dor... mas a de um amigo, é a única que não se arranca do peito.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Decido eu



Imagens: Sophie Thouvenin

Não digas ao que vens. Deixa-me
adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos

teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras
contam-me o resto da viagem. Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo - é um
destino sem dor e sem memórias. Tens

sede
? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja - morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens. Decido eu.

(Maria do Rosário Pedreira in Nenhum nome Depois)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Cerejeira

Imagens: Sophie Thouvenin / ?

Hei-de um dia plantar uma cerejeira,
daí todos os frutos serão dois,
unidos,
vermelhos, amadurecidos,
presos apenas,
pela arte de terem
nascido juntos,
aí sim,
poderei deitar-me
dormir, enroscar-me
na terra onde nasci...

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Les Chansons d'amour


Vale a pena!

Um filme que encanta,
eu que não gosto de filmes musicais... mas este vale a pena pela sua leveza extraordinária.

Termina com uma frase que dá que pensar....

Ama-me menos por mais tempo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Há absurdos que viram noticia

Imagem: http://jn.sapo.pt/

Não acho normal, mas é uma forma de publicidade, barata...

Sentada ao balcão de uma cervejaria com amigos, partilhavamos histórias, até que de repente o JN caiu das mãos de alguém, e eu fiquei minutos a olhar para a capa, sim para a capa...não sabia se era algum novo WC para mulheres, ou lá o que era.
Mas rapidamente tudo se vislumbrou... e como é óbvio gargalhada geral....

Um dos temas da capa do JN de domingo, era que o Shopping de S. João da Madeira tem 4 lugares de estacionamento, cor de rosa, avantajados para mulheres.... mais largos que qualquer outros.... diz o responsável que é uma delicadeza para as senhoras....

Não acho normal... absurdo total... ridiculo!

Pensarão eles que as mulheres agoram andam de limousine, camião tir não, porque não cabia!!!!!

domingo, 28 de outubro de 2007

Arte poética

Imagem: Daniela Nikolova

A palavra despe-se
O silêncio despe-se

Nus
os sexos ardem

Os seios da palavra
Os musculos do silêncio

O silêncio
E a palavra

O poeta
E o poema

(Daniel Faria in Poesia edição de Vera Vouga)

Quando tudo se despe ao olhar e à alma, temos a poesia de viver.... e ardemo-nos

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

(Herberto Helder)

...................................de ideia em ideia......................................descubro-me ........................................

A única verdade absoluta

Imagem: Bradley Parrish roubado neste rasto

As pessoas quando sentem
fazem-no com o coração
é no trajecto p’ra cabeça
que se perde a informação

(João Negreiros in o Cheiro da Sombra das Flores)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Liberdade


Imagens: Neeta Madahar

A dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo!

(A gente vai continuar - Jorge Palma)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O olhar

Imagem: Miguel Pereira em www.olhares.com

Para onde me leva olhar, para onde,
para onde não quero ir,
para onde as pernas tremem, o sorriso estampa,
mas para onde não quero ir,
para onde os suores são quentes,
a alma é grande,
mas para onde não quero ir...
os prados ficam verdes,
as tulipas florescem,
os girassóis giram, giram, giram,
mas para onde não quero ir,
as estradas, tornam-se longas avenidas de malmequeres,
o céu passa para brilhar a estrada,
as estrelas encandeiam a noite,
mas para onde não quero ir,
a àrvore cresce, as janelas têm pingos, os livros andam,
o chão treme, mexe e salta,
mas para onde não quero ir,
os gatos saltam, arranham, ronronam,
mas para onde não quero ir,
as luzes das cidades brilham nos edificios,
as cortinas das casas mostram sombras de luzes amarelas no seu interior,
os quadros têm cor, a música é sonante,
mas para onde não quero ir,
mas vou...
o olhar brilha, o coração treme,
a pele estremece, os cabelos voam,
o sorriso aparece, e os lábios ficam vermelhos,
porque eu quero ir, mas não vou...

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Mude


(Imagens: Ellen Kooi)

Mude,
mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente, observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Não faça do hábito um estilo de vida.

O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
o que está morto não muda !

(Excerto de Mude de Edson Marques)

Eu mudo, eu movimento-me, conheço pessoas novas,
visto cores diferentes,
aceito um livro que não conheça,
uma realidade que me transporta,
um dia na sala,
outro onde o dia me puder levar...

Mude-se, mude-se...
e quando nos mudarmos, mude-se outra vez.

domingo, 21 de outubro de 2007

Envelhecer

Imagem: Blunfision

Quanto mais envelhecia,
quanto mais insípidas me pareciam
as pequenas satisfações que a vida me dava,
tanto mais claramente compreendia
onde eu deveria procurar a fonte
das alegrias da vida.

Aprendi que ser amado não é nada,
enquanto amar é tudo.

O dinheiro não era nada,
o poder não era nada.

Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder,
e mesmo assim era infeliz.

A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos,
infelizes, apesar de sua beleza.

Também a saúde não contava tanto assim.
Cada um tem a saúde que sente.

Havia doentes cheios de vontade de viver
e havia sadios que definhavam angustiados
pelo medo de sofrer.

A felicidade é amor, só isto.

Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.

(Herman Hesse)

E que assim se ame, com vontade de sempre mais,
sentir a felicidade máxima porque se ama...
mas não o amor só a alguém,
ame-se tudo aquilo que se faz,
para que dê vontade de repetir mais e mais...

O amor não quer possuir..... esta dá pano para mangas....

O que te faz amar?

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Deitada

Imagem: Ellen Kooi

Deitada...
deitada porquê?
porque te deitas tu,
menina dos olhos verdes...

Esperas?
Descansas?
Ou simplemesmente não te levantas?

caminhas num filme animado,
dentro de ti vejo andar-te,
olho para ti e tu bailas na floresta
sentes a música e pulas
lês o livro e arrepias-te

se tens tudo isso porque te deitas,
e não entras na tela animada
onde efectivamente respiras.

E tudo mudou

Imagem: La Dolce Vita de Fellini

E tudo mudou...

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss

O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MM

A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse

Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal

Ninguém mais vê...

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service

A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão

O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD

A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email

O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo
O break virou street

O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também

O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike

Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato

Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...

... De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças

(Luis Fernando Verissimo)

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

árvores - umbrellas

Imagem: Veronika Petrova

O vento passou,
percorreu o corpo
arrepiou-o
assim abriram-se asas,
sentiu-se a força,
mesmo em dias que as árvores não se mexeram.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O Quarto

Imagem: David Leahy

Esta noite todos os quartos estão frios.
Entra pelas janelas a verdadeira imobilidade das árvores.
Em volta, nas paredes escurecidas, a infância mais antiga.

Um homem dissipa-se subitamente contra o luar.
Esse é o gesto que faz morrer os campos.
É o mesmo gesto que levanta um amor mútuo,
uma tontura de corpos atirados para uma
morada extrema.

Aqui se conhece o elo que une a terra
e as mãos e o sonho animal.
Porque o círculo das vozes é uma gravidez poderosa.
E há sempre vozes no interior das paredes,
subindo das fundações,
inchando toda a casa.

Em cada quarto um ser procura a presença do seu próprio rosto.

(Vasco Gato)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Eterno

Imagem: Sophie Thouvenin

Eterno é tudo aquilo que dura uma fracção de segundo, mas com tamanha
intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 14 de outubro de 2007

Quem és tu?

Imagens: Kea

Quem és tu que danças descalço na noite escura?

Ouves os gemidos que o vento traz? No sussurro das árvores, na fonte onde corre um fio de água, no lago onde a lua se reflecte, ecoam gritos distantes....
Ouves?

Caminhas sobre fogo. Incendeias as searas. Deitas-te no chão com um sorriso de criança, embalada pelo crepitar das plantas que ardem.

Nunca paras. Nunca te deténs. Nunca olhas para trás, só vês em frente um caminho interminável.

Quem és tu que, no crepúsculo de chumbo baço, uiva de dor?

(pedaços de texto de Miguel Sousa Tavares in não te deixarei morrer David Crockett)

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo!

Clarice Lispector

A vida!

Imagem: Orca Ruga Bin

A vida, não tentes compreendê-la,
e então ela será como uma festa.
E que cada dia te aconteça
como a uma criança que, ao caminhar,
de cada sopro de vento
vai recebendo presentes de flores.

Apanhá-las e guardá-las,
nem nisso pensa a criança.
Tira-as devagar do cabelo
onde se sentiam tão bem,
e estende as mãos aos jovens anos
para receber novas flores.

(Rainer Maria Rilke)

Release the stars


Depois de albuns como Poses, Want one, Want two, Rufus Wainwright, lançou o seu último album Release the stars, num registo mais apurado, mais amadurecido, mais expandido a outras musicalidades, a outros instrumentos, a outros estilos e texturas, sempre com resultados muito próprios, muito individuais.
É mais um album divinal, muito longe do trivial, muito longe do que se ouve normalmente.

Já o vi duas vezes ao vivo, a primeira vez no Coliseu dos Recreios fez a primeira parte dos Keane, onde o próprio vocalista dizia-se fã incondicional de Rufus, e outra no Coliseu no Porto, onde escassas pessoas estavam presentes, mas ainda assim, ela deu o máximo e brindou-nos com um concerto magnífico, sempre muito conversador, arranca sempre o melhor de si, nos concertos, na voz, nos instrumentos, tudo é música.

E mais uma vez o bilhete já está comprado, para o dia 6 de Novembro, onde ele volta ao Coliseu dos Recreios.
Para quem gosta, é imperdível. Para quem não conhece, aconselho vivamente todos os albuns, cada um com o seu mistérios, o seu toque, a sua diferença.

E nem que todas as estrelas, se libertem, se soltem, se unam eu estarei lá para ouvi-lo e subir numa corda à estrela da música que me faz voar.